Meus sketchbooks são uma vergonha. Há muito papel colado por cima das folhas, tinta sobre tinta, esboço sobre esboço. Sem contar as páginas arrancadas – o Moleskine é o único imune aos ataques de fúria. Se houvesse uma forma de desvendar o que há por baixo de cada desenho sobrevivente, toneladas de esboços tortos e feios seriam revelados. Hoje, depois de meses sem encostar no caderninho, voltei a rabiscar. Dessa vez gastei 20 min num retrato dos meus arquivos, que salvei para alguma referência.

São Nanquim é meu salvador. E viva a volta dos bons costumes :)

“(…) há pessoas que se sentem atraídas pela minha sensatez. São poucas pessoas, mas elas existem. Elas e eu somos como dois planetas que gravitam na escuridão do espaço, naturalmente se atraindo e se repelindo. Elas vêm a mim, relacionam-se comigo e um dia vão embora. Elas se tornam amigas, namoradas, esposas. Em certas situações, tornam-se minhas oponentes. De qualquer forma, todas acabam se afastando de mim. Algumas desistem, outras se decepcionam, outras silenciam e acabam indo embora. No meu quarto existem duas portas. Uma é a entrada e a outra é a saída. Não há como confundi-las. Não se pode entrar pela saída, nem tampouco sair pela entrada. É algo definido. As pessoas entram pela porta de entrada e saem pela porta de saída. Há diversas maneiras de entrar e de sair por elas. Mas independentemente do modo como entram e saem, no final, todas acabam saindo. Uma pessoa saiu para tentar uma nova possibilidade, outra para não perder mais tempo e a outra morreu. Não sobrou ninguém. Dentro do quarto não há ninguém. Somente eu. Sempre tenho consciência da falta que sinto dessas pessoas, estas que se foram. Percebo que suas palavras, sua respiração e seu cantarolar ficaram impregnados na casa como partículas de pó.”

“Em câmera lenta, estico braços e pernas e tento certificar-me de que sou apenas eu e que não pertenço a nenhum outro lugar. Eu não sou parte de coisa alguma. No entanto, ainda persiste a sensação e fazer parte de um sonho. Nele, se tento esticar o braço, sinto que algo como um todo começa a se mover em resposta a essa minha intenção.”

“Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de idéias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.”

A safra de ilustras anda baixa. Retomei um costume péssimo: jogar fora sketches…quilos e quilos de sketches. Minha relação com meus desenhos (e com outros aspectos da minha vida) é um tanto estranha. Ódio, amor, tristeza, ansiedade, empolgação. E é em momentos de confusão como esse que pesco do passado o hábito de escrever. Pessoa tinha razão. Escrever é esquecer, mesmo que momentaneamente. Meus esquecimentos momentâneos ficam guardados por aqui no computador, em arquivos secretos…pois são representantes da minha fuga e de mais ninguém.

[Dr. Trevor Cries - ilustra mais recente para Daniel Lince]

“Silence is only frightening to people who are compulsively verbalizing.” (W. Burroughs)

For some reason, I’ve always been the quietest student in school. After all these years, I finally know why: verbiage bores me to death and I can’t concentrate. That’s why sometimes I rather work while everybody else’s asleep.

“On the surface, these figures are simply feral and domestic individuals suspended in a moment of tension. Beneath the surface they embody the impacts of aggression, territorial desires, isolation, and pack mentality.

Both human and animal interactions show patterns of intricate, subliminal gestures that betray intent and motivation. The things we leave unsaid are far more important than the words we speak out-loud to one another. I have learned to read meaning in the subtler signs; a look, the way one holds one’s hands, the tightening of muscles in the shoulders, the incline of the head, the rhythm of a walk, and the slightest unconscious gestures. I rely on animal body language in my work as a metaphor for these underlying patterns, transforming the animal subjects into human psychological portraits.

I want to pry at those uncomfortable, awkward edges between animal and human. The figures are feral and uneasy, expressing frustration for the human tendency towards cruelty and lack of understanding. Entangled in their own internal and external struggles, the figures are engaged with the subjects of fear, apathy, violence and powerlessness.

Something conscious and knowing is captured in their gestures and expressions. An invitation and a rebuke.”

(Beth Cavener Stichter)

Say no more. Just loved the way she described her work.

Adoro o silêncio das madrugadas recheadas de trabalho. Adoro. Silêncio absoluto, um friozinho. Ouço de longe uns homens carregando o estoque no supermercado e tomo um gole do café fresquinho na caneca. Do nada, sem explicacão, vem esse aroma de Caio Fernando no ar. Invadindo mesmo, sem pedir licença. É aí que paro tudo, está na hora de dormir. Volto à labuta em 3 horas. Caio Fernando, me deixe em paz.

“Isso o remetia a outras feridas mais antigas, nem mais nem menos dolorosas, porque a memória da dor da feridantiga amenizou-se, compreende? Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva.”

Música produz imagens em minha mente. Imagino que todo artista visual seja assim. Esta ilustração saiu para o Daniel Lince, no último capítulo, há algumas semanas. E hoje, enquanto trabalhava aqui, Animal Collective caiu no shuffle e logo lembrei do Spike voando. Combinaram, não? :)

“What do I want? Sky. What would I want? Sky.
Is everything alright? You feelin’ moany? You feelin’ lonely? You’re not the only.
Is everything alright? You feelin’ stormy? You feelin’ phony? You’re not the only.

Do you get up, up, up? Clouds stop and move above me, too bad they can’t help me. What is the right way? Do I float up, up, up, and not stop and look around me? Gray’s where that color should be. What is the right way? Old glass is clinkin’ and a new order’s blinkin and I, I should be floatin, but I’m weighted by thinking.”

“The concept of absurdity is something I’m attracted to.” (D. Lynch)

Quando a vida carece de sentido, ela é muito mais interessante. Fui levada por um tsunami que me manteve imersa durante 4 meses. Todos os planos ficaram à deriva. Fui contra as probabilidades e mantive a calma.

A maré baixou agora, pouco antes do ano encerrar…e o que encontrei? Um prazo de validade curto para a quantidade de planos no Brasil. Encontrei o cansaço da alma, do peito, do ar que vem pesado e custa a sair. Encontrei uma porção de interrogações, que não passam de sintomas da ‘doença do atraso’. Como retomar o hábito de riscar e riscar no papel branco todos os dias? Como retomar hobbies que estacionei lá atrás? Onde colocar sentimentos, esperanças, sonhos? Paciência e cabeça no lugar…pois o desespero, ah, desse não sou amiga há tempos.

“How can anybody know?
How they got to be this way?
You must have known I’d do this someday
Break my arms around the one I love
And be forgiven by the time my lover comes
Break my arms around my love

I don’t have any questions
I don’t think it’s gonna rain
You were right about the end
It didn’t make a difference”

[Image: Tango, by James Jean / Lyrics: Daughters of The Soho Riots, by The National]

:) Finalmente atualizei meu site com sketches e projetos pessoais: http://kaorinagata.com